sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Laranjas ao vento




    Tinha deixado crescer o cabelo...os caracóis tinham voltado e com eles os nós - como os caroços das laranjas, que incomodam. Havia a vontade de concretizar cada sonho que tinha em mente. Sentada à beira mar - numa rocha onde já batia a àgua - comecei a descascar uma tangerina que tinha no bolso. (Encontro tudo e mais alguma coisa nos bolsos)
    Comecei a pensar no que queria, no que não queria, no que tinha e no que gostava de ter. Os cabelos, já grandes e com caracóis, esvoaçavam com a brisa do mar. Cada casca que punha no regaço era o equivalente a um pensamento: 3 filhos, uma casa perto da praia, fotografar todos os dias, perder-me no tempo e apanhar uma dor de barriga a comer laranjas (...)
    Cuspi os caroços para a areia, apanhei as cascas da tangerina e deixei-as no bolso - mais tarde espero lembrar-me que estão lá. Peguei nas minhas coisas e fui caminhar pela beira mar, a chapinhar na água - como quando era criança. Apanhei conchas, paus e penas das gaivotas. O sol já se estava a pôr, sacudi os pés, calcei os sapatos e voltei para a estação. Era hora de voltar para casa. 

Eu era uma laranja feliz todos os dias, assim.

Ana Marisa

2 comentários:

Pedro Taveira disse...

Incrível ! :)
Deixo aqui o meu primeiro passatempo e gostaria de poder contar contigo :)
http://diasporadossentidos.blogspot.com/2015/01/1-sorteio-diaspora-dos-sentidos-o-velho.html
:)

Cláudia S. Reis disse...

Estive a ler o teu blogue quase todo e sabes, querida Marisa, com as tuas palavras conseguiste fazer-me gostar de laranjas! Fazes magia com as palavras.