sexta-feira, 10 de outubro de 2014

À roda das laranjas





    Acordei, comi qualquer coisa à pressa e entre a resmunguice da minha mãe, lá me vesti para sairmos. Paramos no hospital, o seu local de trabalho e segunda casa. Rapidamente bebi 2 cafés para acordar enquanto ela dava conselhos de culinária à Daniela. - Acho que ela é estagiária de Serviço Social, lá. Passeamos pelos corredores dos cuidados paliativos armadas em turistas: a minha mãe, turista maior, de folga. E eu sempre atenta, armada em Jornalista. Cada vez que vou lá reflito mais sobre o facto de as pessoas andarem com as laranjas trocadas. Até a minha mãe anda, às vezes. É pesado ver pessoas a morrer mas é gratificante ajudá-las a ter a melhor qualidade de vida possível até chegar a sua hora. Passado uns minutos vamos à administração - a diretora fazia anos. "Ai oh Anita, estás tão grande"; "Estás uma mulher". Cresci um pouco ali: com a minha avó na cozinha do hospital e depois com a minha mãe nas enfermarias. 
    Toda a gente me conhece e tal como fazem com a minha mãe, acarinham-me sempre. Notei, em todos os sítios por onde passei hoje, que as pessoas estavam com as laranjas trocadas. Até a máquina do café me "comeu" dez cêntimos. É certo, gosto de rever pessoas e gosto que me perguntem como estou, como vão os estudos, os amores...que me digam que estou bonita (como diz sempre o Vítor), crescida, uma mulher. E que pareço irmã da minha mãe. Hoje descasquei as minhas laranjas, espremi-as bem e fiz um sumo. 

Ana Marisa